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segunda-feira, 14 de março de 2011

O libertador

(Conto alegórico e hilariante que relata a vida de um jovem rapaz nascido nos finais do século passado.)

Jesus era um menino como todos os outros, tinha um enorme sorriso, uma energia contagiante e irradiava luz. Nasceu a cerca de dois quilómetros de Belém, mais concretamente na maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Onde desatou num desmesurado berreiro, ao aperceber-se de que havia entrado em cena, neste palco de loucos. Filho de José Bonifácio e Maria Albertina, casal de origens humildes que residia num dos muitos bairros operários da zona ribeirinha de Lisboa. O seu pai era carpinteiro a tempo inteiro, descansando só aos domingos, e a sua mãe, de vez em quando lá esfregava umas escadas para ganhar mais um dinheirinho.
Decorria o ano de mil novecentos e setenta e oito. Ano de grande mágoa no seio da santa madre igreja, suscitada pelo desaparecimento de dois Papas, Paulo VI, falecido ao fim de quinze anos de pontificado, e João Paulo I, falecido ao fim de trinta e três dias depois de ser eleito. Com efeito, Karol Józef Wojtyła é eleito como Papa João Paulo II. Enquanto isso, na Suiça, uns malandros levaram do cemitério o corpo de Charlie Chaplin, numa tentativa de extorquir a sua família. As ilhas Salomão declaram a independência. E, Espanha e Grécia adoptam; a primeira das nações referidas uma nova constituição, e a segunda a sua bandeira actual. A argentina Silvana Súarez é eleita Miss Mundo, e nascem também outros meninos, entre eles os famigerados Alexis Amore e Sid Wilson, ela uma actriz porno peruana e ele o DJ dos Slipknot.
Por cá, em Portugal, ninguém se entendia. Os mesmos governantes que fizeram um enorme manguito a Muammar al-Gaddafi, dirigente líbio que pediu a independência da Ilha da Madeira, segundo a Organização de Unidade Africana pertença de Africa, sucedem-se uns aos outros no cargo de primeiro-ministro. Pelos vistos ignorando, que a ditadura se havia instalado exactamente porque os governantes da primeira republica, à sua semelhança não se conseguiam entender, nem por nada deste mundo. Por sua sorte, o velho decrépito de seu nome Oliveira Salazar, já cá não se encontrava entre nós para repetir a sua façanha, deitando assim novamente as suas manápulas ávidas de poder ao país. Estando, os homens do poder, livres há época para fazer do país o que bem entendessem e lhes passasse pela telha. Para grande desilusão de José Bonifácio que era do Benfica, e do seu pai António Manuel Bonifácio que era do Sporting, o Futebol Clube do Porto ganhou o campeonato.
José Bonifácio havia fechado a oficina há uns instantes e preparava-se para ir jantar à casa dos seus pais, quando recebeu uma chamada da maternidade, “ Boa noite, fala da maternidade, o Senhor José Bonifácio, por favor ”, declarou uma voz aflautada e irritante, a qual lhe eriçou todos os pelos do seu corpo. A mulher, que se encontrava do outro lado da linha, informou-o que a sua esposa tinha acabado de entrar em trabalhos de parto. Boquiaberto, sem nada dizer, deixou o ocultador a fazer de pêndulo, entre os pés da mezinha onde se encontrava o telefone, e tendo apenas tempo para apanhar o sobretudo do cabide saiu porta fora, com esta a bater retumbantemente atrás de si. Uma vez na rua, desatou numa corrida desenfreada por esta abaixo, gritando para quem quisesse ouvir: “ Jesus vai nascer, Jesus está a nascer!”.
A noite estava coberta por uma leve bruma gélida, porem, não faltavam nas redondezas pessoas que o pudessem escutar, muitos dos moradores do bairro regressavam agora a casa depois de um árduo dia, passado a trabalhar nas docas ou nas fábricas da cidade, e outros andavam nas suas lides habituais. “ Heresia!”, praguejou a Dona Adelaide, uma das muitas clientes assíduas da igreja lá do bairro, que por acaso estava à janela a apanhar do estendal algumas das suas cuecas tamanho xxxl. “ Isso já não aconteceu há dois mil anos?”, interpelou um engraçadinho qualquer que descia a rua de bicicleta. “Eu sabia que ele voltaria um dia!”, bradou um homem, já meio trôpego pelos efeitos do álcool, que subia a rua pelo passeio contrário.
Apressado, José, só parou diante a montra da florista, estabelecida ao fundo da rua, já perto da esquina onde se encontrava a paragem de autocarro. Como nestas ocasiões é costume oferecer um ramo de flores à nova mamã, não pensou duas vezes e bateu à porta, impetuosamente. A Dona Gertrudes, que já se preparava para fechar o estabelecimento, estando a contar o dinheiro que tinha em caixa, ao fim de uns instantes a observar quem a procurava aquelas horas tardias, lá se designou a levantar o seu sim senhor do pequeno banco, giratório e almofadado, onde se encontrava.
Quando abriu a porta, o espanta espíritos chinês de madeira, com mandarins e borboletas embutidos em marfim, o qual a sua sobrinha lhe havia oferecido aquando do seu regresso de uma visita a Macau, tiniu estridentemente. No exterior deparou-se com um Bonifácio de rosto rosado, devido ao esforço que acabara de fazer ao correr rua abaixo, o qual a fitou de olhos esbugalhados, “Jesus está a nascer”, anunciou arrebatadamente, “ Dê-me o maior ramo de rosas que aí tiver, para oferecer à mãe “.
A Dona Conceição, que se encontrava a fazer companhia à sua amiga de longa data, estando sentada numa cadeira de verga num dos cantos da casa, embrenhada no seu tricô, ergueu a cabeça e ajeitando no nariz os seus óculos, com lentes tipo fundo de garrafão, disse: “Já não te disseram para beberes menos, José Bonifácio?”.
Ambicionando as eventuais moedas que José poderia ter no bolso, a Dona Gertrudes apressou-se em atender o seu pedido, sem nada dizer. Agarrando no ramo de flores, José, precipitou-se para a paragem de autocarro, sem receber o troco a que tinha direito. Depois, de contar as pedras da calçada por duas vezes, ter visto o horário do autocarro por dezenas e de ter gritado a toda a gente que Jesus já nascera, lá surgiu o autocarro apinhado de passageiros. Ao constatar que havia dado todas as moedas à dona Gertrudes, declarou: “ Jesus já nasceu, é o meu filho e eu gastei todo o dinheiro que tinha nestas flores, que aqui trago, para dar à Maria, que o acabou de parir agora mesmo”. Com metade do autocarro abismada, e com a outra a rir a bandeiras despregadas, o pai de Jesus foi convidado a sair da viatura, por um chofeur visivelmente irritado, com um enorme bigode felpudo e de aspecto bonacheirão, que lhe indicou a porta de saída, através de um dedo indicador carnudo e imundo onde se podia ver uma unha amarela e encarquilhada.
Novamente na rua, já sem as flores que com a confusão deixara ficar no autocarro, teve que tomar uma decisão rápida, “ E agora o que faço? Que desgraça a minha! Subo a rua e vou a casa buscar dinheiro para apanhar o próximo carro que só passa daqui a meia hora, ou meto as mãos nos bolsos e sigo caminho?“, José optou pela segunda hipótese de escolha, mas antes de se pôr a caminho e de enfiar as mãos nos bolsos, acendeu um definitivo.
Após uma longa e árdua caminhada, quando avistou o frontispício da maternidade, para além dos três cigarros que ofereceu, a quem lhos pediu, já havia fumado o maço praticamente todo. Ao entrar no café de esquina, que estava a abarrotar de gente, a fim de comprar um novo maço, olhou para a televisão e constatou que jogava o Benfica, “ Logo hoje é que o puto havia de nascer!“. Pediu o tabaco e uma bica, e quando constatou que não trazia dinheiro já era tarde, “ Ponha na conta do Tadeu, que não paga ele nem pago eu”, pensou. Não podendo fazer mais nada deixou-se ficar por ali a assistir ao jogo, esperando por uma oportunidade de sair sorrateiramente.
Entretanto, na sala de partos, Maria dava à luz. Devido ao suor que lhe escorria da testa em catadupa, tinha o rosto luzidio e os cabelos emaranhados, colados ao mesmo. Numa dança louca, contorcia-se e agitava-se freneticamente. Parecendo estar possuída soltava toda a espécie de injurias e impropérios, possíveis e impossíveis de imaginar. Em seu redor meia dúzia de enfermeiros, fleumáticos e apáticos, procuravam-na acalmar e segurar com todas as suas forças, enquanto um obstetra já idoso e bastante sisudo tentava por todos os meios trazer Jesus ao mundo. Após momentos extravagantes e angustiantes, lá Jesus espreitou cá para fora, para delírio de Maria e de todos aqueles que haviam dado assistência ao parto. Por incrível que pareça o seu choro conseguiu superar, a nível de decibéis, em larga escala os gritos e uivos da mãe.
Depois de ministrarem uma boa dose de calmantes a Maria, e de terem levado a criança para a limparem, os enfermeiros trouxeram-na para o leito da mãe. Já a regressar a si, Maria, lembrou-se de perguntar ao obstetra, o qual entretanto a viera observar, se a criança era menino ou menina. No caso de ser menino há muito que estava decidido que se chamaria Jesus, caso contrario teria de se improvisar. “É uma menina!” exclamou o obstetra seriamente. Ainda agora Jesus acabara de nascer e já havia morrido. “ Não me diga uma coisa dessas, senhor doutor, todos estávamos com fé de que fosse um menino”. Disse visivelmente entristecida, “Até já tínhamos um nome para ele e tudo!”, o médico sorriu, “Então, anime-se que é um menino, só estava a brincar!”.
Enfurecida, Maria, pegou no objecto que tinha mais há mão e conjuntamente com um chorrilho de injúrias arremessou-o à testa do homem, com todas as forças que ainda conservava. Ao embater no seu alvo, a arrastadeira abriu uma ferida, e o obstetra com sangue a escorrer pelo rosto, maculando-lhe a sua lustrosa bata branca, teve que se dirigir à enfermaria a fim de ser suturado. “Chamem o meu marido, eu quero o meu marido, chamem o meu marido, já”, gritou Maria para um grupo de enfermeiros em alvoroço.
Instantes depois, após levarem Jesus para o berçário, surgiu no quarto de Maria uma enfermeira, já com muitos anos de casa, e visivelmente mais experiente em tais situações delicadas, as quais exigem o mínimo de zelo, “Lamento muito informá-la, minha jovem mãe, mas o único dos seus familiares que não se encontra presente na sala de espera é precisamente o seu marido”, Maria silenciou-se e disse muito baixinho: “ Deve estar a ver a bola, o malandro!”.
Entretanto, Chalana marcou golo para o Benfica, e eis que surgiu a oportunidade de que José tanto ansiava para poder sair do estabelecimento, sem pagar a despesa que lhe cabia. Gritou golo e entre uma confusão de vivas, gritos e abraços, escapuliu-se. Quando já ia a entrar na maternidade, quatro homens bem constituídos fisicamente acercaram-se de si,” Parece que estou metido em maus lençóis!”.
“Qual é a tua explicação para o que acabaste de fazer, rapazola?”, inquiriu o dono do estabelecimento, que também fazia parte daquele grupo de matulões. Perante tal inquisição, Bonifácio respondeu: “ Jesus já nasceu, é o meu filho e eu gastei todo o dinheiro que tinha num ramo de flores para dar à Maria, que o acabou de parir agora mesmo. Como não tinha dinheiro para pagar o bilhete do autocarro vim a pé até aqui, pelo caminho três sujeitos pediram-me um cigarro e um deles certamente me roubou as flores, sem que me apercebesse. Ao chegar aqui à porta dei conta de que o tabaco me havia acabado, e esquecido de que não trazia dinheiro comigo, fui comprar mais. É esta a minha explicação “.
Não convencidos minimamente com a história que haviam escutado de José, os matulões trocaram olhares entre si, e o maior de todos assentou-lhe um valente soco nos queixos. Azamboado, José caiu no chão levando a mão direita de encontro ao seu nariz ensanguentado. “Toma lá que é para aprenderes!”, proferiu um dos agressores. Apercebendo-se do reboliço os seus familiares, os quais se encontravam no interior do edifício, o seu pai, o sogro, dois dos irmãos de Maria, o seu grande amigo Judas Sarnento, e o seu irmão, precipitaram-se em seu socorro. Enquanto o diabo esfrega um olho gerou-se um enorme alvoroço à porta da maternidade. O que não tardou para se aglomerar ali uma autentica multidão, incendiada pela discussão, e também para que chamassem a policia. Quando a policia chegou ao local, levou todos para a esquadra, à excepção de José Bonifácio que entretanto fora levado, por uma jovem enfermeira, para o interior da maternidade, onde agora lhe prestava os primeiros socorros.
Depois de tratado, e de ter esclarecido toda a situação com os responsáveis da instituição em causa, José, foi conduzido à presença da mulher e do filho, isto por uma administrativa de voz aflautada e irritante. Ao entrar no quarto, Maria disse-lhe: ”Desgraçado, mais um pouco chegavas quando o teu filho estivesse para ir à tropa. Malandro, que nem um ramo de flores me foste capaz de comprar. Estiveste a ver o Benfica, não foi?”.

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