(Conto alegórico e hilariante que relata a vida de um jovem rapaz nascido nos finais do século passado.)
O primeiro dia de escola foi para Jesus um tormento. Aquela criança intangível e iluminada, que estava longe de esquecer o lugar de onde viera e ao qual pertencia, teve uma primeira infância santa, distante dos muitos horrores deste mundo, apadrinhada pelos seus pais e restante família, através do seu amor incondicional. O quintal lá de casa, o estádio da luz, os jardins lá do bairro e as praias da linha às quais ia com a família aos domingos, eram os seus lugares sagrados. O menino era um rei dos céus, isto até aquele dia fatídico em que tudo mudou na sua vida.
Decorria o quarto ano da década de oitenta. Um período bastante marcante para a história do século XX, segundo o ponto de visto dos acontecimentos políticos e sociais. O qual, segundo muitos, marca o fim da idade industrial e dá início à idade da informação. No mundo, o atentado contra o Papa João Paulo II, a eleição de Ronald Reagan nos Estados Unidos da América e de Margaret Thatcher no Reino Unido marcaram todo este período, traçando a política neoliberal que hoje é apanágio da maioria dos países capitalistas. Popularizaram-se os computadores pessoais, os famosos PCs, os walkmans e as videocassetes. Michael Jackson assusta o mundo com Thriller, o álbum mais vendido da história.
Por cá, no nosso pequeno Portugal, eram os grandes que desfrutavam do sol do país, assim como das suas riquezas naturais. Vestiam e comiam bem, deslocando-se em brutos carros, enquanto o povo enganado acorria às grandes superfícies comerciais, imponentes estruturas de betão que surgiam por toda a parte quer fosse em reservas naturais, quer fosse nos descampados onde outrora as crianças brincavam, em busca das maravilhas tecnológicas que sabiam existir através das hipnóticas fitas de Hollywood, esquecendo assim a palavra de ordem; “Estamos em crise!”. Houve quem gritasse bem alto, alertando para o que aí viria, mas os seus gritos soaram mudos às gentes portuguesas.
Lá no bairro o mais falado e admirado era aquele que tinha um bom transístor, com o qual reunia toda a vizinhança aos domingos, a fim de escutar os relatos de futebol. Quando já todos tinham um, de ultimo modelo, o mais célebre já era aquele que possuía uma televisão. E, quando já todos tinham uma, a criatura mais admirada era aquela que se deslocava de automóvel para o emprego, e com o qual durante o fim-de-semana levava toda a família a passear à terra. Não querendo perder o comboio da evolução, José Bonifácio, depois de tirar a carta de condução à quinta tentativa, assaltou as suas economias e adquiriu um volkswagen carocha, já com mais de dez anos de existência, o menino dos seus olhos.
Era um grande dia para a família Bonifácio, Jesus ia entrar para a escola para poder vir a ter um futuro brilhante, e José teria agora a sua grande oportunidade de exibir a sua nova aquisição, pelo bairro inteiro. Maria acordou o filho muito mais cedo do que o habitual, “Acorda filhote, hoje é o teu grande dia, aquele em que vais fazer parte deste mundo”. Jesus acordou e fitou a mãe, ainda estremunhado e de olhos esbugalhados, “ Porque me acordaste, mamã, ainda não há sol?” perguntou, madraço. “Para onde é que a mãe te disse, ontem, que tu ias?”, Jesus nada respondeu, limitando-se a olhar para a mãe pasmadamente. “Vais para a escola, aprenderes a ler e a escrever para vires a ser um grande homem!”
Triste, por saber que iria ter um dia diferente, deixando para trás as suas expedições pelo quintal lá de casa, longe de tudo o que tão bem conhecia, Jesus, lá se levantou contrariado, tropeçando nos brinquedos que estavam espalhados pelo chão do seu quarto. Maria vestiu o filho num abrir e fechar de olhos, levando-o de seguida para a cozinha, onde umas aloiradas torradas besuntadas de manteiga e um copo de leite quente o aguardavam. “ Jesus credo!”, exclamou Maria ao escutar a estridente buzina do carocha de José. “O que foi que eu fiz?” perguntou Jesus abismado e assustado pelo barulho ensurdecedor, “Não era para ti meu filho, estava-me a referir ao outro Jesus das nossas vidas, o nosso senhor do céu”, explicou confusa. “Não conheço o senhor, quem é?”, perguntou o menino, na inocência dos seus seis anos. “Deixa para lá, hás-de aprender isso na escola, agora despacha-te que o teu pai está à nossa espera, para te levar à escola.
Enquanto aguardava pela mulher e pelo filho, agarrado ao volante do seu estimado automóvel, estando este a queimar gasolina, José, grandemente embevecido respondia às perguntas da multidão de curiosos que se acercara de si, escutando também alguns comentários, uns agradáveis, outros não tanto; “Quantos quilómetros dá?”. “Gasta muito?”. “O teu é melhor de que o meu!”. “O meu bate este à distância!”. Entretanto Maria surgiu à janela, “Espera que já estamos quase despachados, o menino só está à acabar de comer”, José voltou a buzinar e disse: “Ele que coma pelo caminho, que daqui a menos de uma hora tenho que ter a oficina aberta!”. Maria colocou, nas costas da criança, a mochilinha que havia comprado no dia anterior com imenso carinho e arrastando o filho consigo saiu porta fora,”Ainda não acabei de comer!” queixou-se Jesus, “Anda vá, comes pelo caminho”.
Não querendo parecer uma desmazelada perante as futuras preceptoras de Jesus, Maria, aperaltou-se conforme as circunstâncias assim o exigiam, pintando os lábios e vestindo uma bonita saia de padrão axadrezado, que lhe dava pelos joelhos. Ao vê-la, as atenções da vizinhança, as quais estavam centradas no carocha de Bonifácio, dispersaram-se deste e centraram-se em si. “É lá!”, grunhiu um engraçadinho qualquer. “Parece ela que vai à igreja”, sibilou a Dona Adelaide aos ouvidos da Dona Gertrudes, que por sua vez disse: “Não queres uma florzinha para pôr no cabelo, filha?”. Antes que alguém dissesse o que não devesse, José voltou a buzinar, agora com impetuosidade, fazendo com que todos dessem um salto e desviassem o olhar na sua direcção. A deixa perfeita para que Maria e a criança entrassem na viatura. Uma vez dentro do automóvel, José fez o motor roncar e arrancou.
Maravilhado com tudo aquilo, Jesus, seguia viagem com o rosto afundado no vidro da janela, fitando com entusiasmo tudo o que surgia à sua volta. “Um dia ensino-te a conduzir, meu filho”, disse José, virando-se para trás para o olhar. “E se te preocupasses menos com isso e te concentrasses no que estas a fazer”, admoestou-o Maria, mas já tarde de mais, quando pôs de novo os olhos na estrada, José não conseguiu evitar o passeio e galgando o mesmo foi de encontro aos caixotes de peixe da Dona Etelvina, a qual costumava vender à entrada do pátio, espalhando o seu conteúdo pelo chão. “ És sempre a mesma coisa!”, exclamou Maria. “O que posso fazer por si, Dona Etelvina?” perguntou José, ao sair da viatura e depois de ter ouvido, da parte da peixeira uma medonha série de impropérios. “Já têm almoço para hoje?”, perguntou a peixeira com um sorriso cínico no rosto. “ Não, ainda não”, respondeu Maria“. “Sempre me podiam comprar algum peixe, para me minimizar os estragos”, sugeriu a mulher. Não querendo perder ali mais tempo, o casal comprou uma dúzia de sardinha, a qual fora apanhada directamente do chão para o saco. Enquanto isso, Jesus desatou a chorar, pois com o impacto havia dado um salto e batido com a fronte, nas costas do banco da frente. Procurando acalmar o filho, Maria colocou o peixe em cima do banco onde havia seguido até então e foi-se sentar ao lado do filho no banco detrás.
Com o receio de ter que fazer novamente uma paragem brusca, podendo magoar o filho, José seguiu a vinte quilómetros por hora, originando assim o primeiro buzinão da história do automóvel. Ainda não haviam descido a rua por completo, quando José se lembrou que o peixe poderia manchar o estofo do banco. Consequentemente, Maria retirou o peixe de onde estava, e ela mesmo o levou. Ao fazê-lo ficou numa posição menos imprópria, de rabo no ar, a modos que quem seguia atrás deles pôde apreciar as vistas. Ao ouvir um coro de vivas e mais buzinadelas, José, voltou a tirar os olhos da estrada para se inteirar do que se estava a passar, ao fazê-lo não se apercebeu do enorme cão que se lhe cruzou no caminho e atropelou-o. Jesus voltou a chorar e Maria saltou disparada para frente. “ E agora o que faço?” perguntou José, “ Isso é um problema que te cabe a ti, pois eu vou levar Jesus à escola, e a pé”, respondeu Maria.
Enquanto José se viu no centro de um autêntico tumulto, Maria pegou Jesus pela mão e apeada segui caminho, “Espera, já viste como estás, não podes aparecer na escola assim”, disse Bonifácio para a sua mulher, a qual furiosa o ignorou e continuou a andar, rua abaixo. “Porque não vamos com o pai?”, perguntou Jesus visivelmente confuso. “Porque é mais seguro, meu filho”, respondeu-lhe a mãe. Depois de descerem a rua, atravessaram o entroncamento e andando mais um pouco alcançaram um velho edifico, certamente erigido na primeira metade do século, de aspecto sombrio e decadente. “Eis a tua escola”, anunciou Maria. Jesus chorou de novo, sendo convencido pela mãe a entrar no edifício, só ao fim de uma hora e depois de comer dois bolos repletos de creme, comprados na pastelaria da esquina.
De novo junto à entrada do edifício, Maria tocou à campainha, a qual gerou um barulho ensurdecedor, e instantes depois tinha perante si a empregada de serviço daquela instituição, a balofa Dona Amélia, a qual trazia o seu bibe azul impregnado de nódoas e aparentava um ar extremamente enfadado, “Bom dia, minha senhora”, proferiu o mais simpaticamente que conseguiu. “Este é Jesus, já está tudo tratado com a patroa, volto às seis para o apanhar, a senhora já reparou nas nódoas que tem na bata?”, proferiu Maria. A Dona Amélia limitou-se a segurar Jesus pela mão, puxando-o para o interior do edifício e depois de esboçar um esgar de troça disse, muito educadamente: ”A senhora não tem espelhos, suponho!?”
Após desejar um bom dia ao filho, despedindo-se deste, intrigada Maria retirou o seu pequeno espelho da sua bolsa e mirou-se, não podendo, nem querendo acreditar no que via. Os seus cabelos estavam em tamanho desalinho que mais pareciam um ninho de ratos, a sua maquilhagem estava toda esborratada e a sua saia tinha uma enorme mancha de água, já para não comentar o cheiro a peixe que emanava da sua pessoa. “José Bonifácio, seu trapalhão, juro por Deus que vais estar mais de duas semanas a tentares abrir a porta de entrada”, pensou.
Depois de largar a mão de Jesus, a dona Amélia virou-se para ele e disse: ”Bem findo ao inferno!”. Longe de compreender o que lhe havia sido dito, Jesus apenas reparou na enorme verruga que a senhora tinha no queixo, após a fixar por instantes a criança olhou-a nos olhos, procurando encontrar algum conforto, mas o que viu desapontou-o. Aquela criatura horripilante sorria com desdém e o menino desatou novamente a chorar. “Bolas, mais um chorão!”, exclamou como sempre enfadada.
Instantes depois, a Dona Amélia depositou Jesus numa enorme sala fechada, cuja única janela para o exterior se encontrava trancada. O chão era pavimentado por cimento e, quatro paredes frias e húmidas delimitavam o recinto. Ali centenas de crianças gritavam histericamente, perseguindo-se umas às outras numa correria desenfreada. Jesus chorou mais uma vez. No meio de toda aquela loucura, sentadas num dos muitos bancos corridos que ali se achavam, encontrou entre todas aquelas crianças as únicas que lhe pareceram ser normais tal como ele. “Eu sou Jesus, e vocês como se chamam?”. A menina, lourinha e vesga, disse chamar-se Gloria. E o menino, gordinho e mandrião, disse chamar-se Joaquim.
Ao final do dia Maria telefonou a José, dizendo que não ia poder ir buscar o filho, pois encontrava-se no cabeleireiro e certamente ainda ia demorar. José não podendo, nem querendo fechar a oficina pediu à sua mãe, muito simpaticamente, se não se importava de ir buscar o neto à escola. “É com todo o gosto que o faço, meu filho, Jesus vai ter uma enorme surpresa”, disse a Dona Jorgete ao telefone.
Quando a porta da escola se abriu e Jesus avistou a avó Jorgete os seus olhos brilharam. E, quando a sua querida avó lhe perguntou o que havia feito naquele dia Jesus respondeu: “Hoje conheci o inferno, é um lugar frio e gélido repleto de criaturas feias e más, reneguei-o assim que lá entrei, mas para meu bem, lá também estão dois anjos que a todo o custo tentam salvar as almas perdidas. É bom saber que não estamos sós!”. A Dona Jorgete abriu a boca de pasmo, e ao fazê-lo deixou cair com aparato no chão a sua prótese dentária. Depois de colocar no seu devido lugar o objecto que havia deixado cair, disse: ”Deus te abençoe, meu filho!”